quarta-feira, 31 de julho de 2013

RESIDÊNCIA SERÁ NO SUS

ZERO HORA 31/07/2013 | 14h56

Governo desiste de dois anos a mais na graduação de Medicina. Tempo de estudo continuará obrigatório, mas poderá ser cumprido na residência

A pressão dos médicos que culminou com a paralisação desta terça e quarta-feira obteve saldo positivo nesta manhã. Em reunião da comissão de especialistas com representantes da universidades federais, o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou que o governo decidiu alterar um dos pontos mais polêmicos do programa Mais Médicos: os dois anos a mais na graduação de medicina poderão ser cursados na residência.

A comissão que incluía médicos de diversas áreas e professores univesitários apresentou para o ministério da educação a proposta. Por meio da assessoria, o MEC alerta que essa decisão já estava prevista na medida provisória do programa Mais Médicos.

Se prevalecer essa nova posição, anunciada após a paralisação que uniu da categoria por todo o país, a residência médica será exigida de quem entrou na faculdade de medicina de 2012 para frente. Hoje, para se formar, o estudante não precisa passar pela residência.

De acordo com a nova proposta, os médicos recém-formados farão a especialização durante a residência médica, como atualmente, mas, no primeiro ano, a atuação será necessariamente na atenção básica de urgência e emergência de uma unidade do SUS.

Mercadante defende especialização no SUS

O ministro Aloízio Mercadante defende que a Medida Provisória 621, que trata do Programa Mais Médicos e tramita no Congresso Nacional, já previa a possibilidade de que os dois anos adicionais se convertessem em residência médica. O Conselho Nacional de Educação (CNE) também deverá propor novas diretrizes para os cursos de medicina a partir das modificações da MP.

— Após a formação do médico na graduação, em seis anos, a residência médica deve assegurar essa vivência na urgência e emergência e na atenção primária — , disse o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, após participar de uma reunião com o titular da Saúde, Alexandre Padilha, e representantes de faculdades de medicina federais do País, em Brasília.

PROTESTO DE JALECOS

ZERO HORA 31 de julho de 2013 | N° 17508


Mobilização une entidades médicas e serviços param

Ação, que segue hoje, não afetou atendimentos de urgência e emergência



Para protestar contra vetos da presidência à lei do Ato Médico e contratação de estrangeiros, médicos suspenderam serviços em todo o país ontem, mantendo apenas atendimentos de emergência e urgência e em 50% das consultas agendadas. Essa foi uma das raras situações em que as entidades médicas defenderam a mesma posição.

De acordo com o presidente do Sindicato dos Médicos de Santa Maria, Benônio Terra Vilalba, isso ocorre porque o problema da saúde do país foi atribuído à categoria:

– Jogaram a culpa em nós, mas o problema está nos gestores.

Em artigo publicado em ZH de ontem, o médico Gilberto Schwartsmann defendeu a mesma tese. “O governo conseguiu o inimaginável: uniu toda a classe médica brasileira! Em mais de 30 anos de profissão, nunca havia visto tantos médicos participando de protesto de rua!”, escreveu o oncologista.

Hoje, ocorre o segundo dia da mobilização. Ontem, a adesão à paralisação alcançou quase a totalidade da categoria. Vinte e dois Estados aderiram ao movimento (ficaram de fora Alagoas, Amapá, Roraima e Piauí).

Em Porto Alegre e na Região Metropolitana, médicos aderiram à paralisação nos hospitais de Clínicas, Conceição, Santa Casa, São Lucas da Pucrs e Cardiologia. O serviço de Traumatologia do Parque Belém também foi afetado. No Interior, houve manifestação em pelo menos 25 cidades. Nos ambulatórios dos grandes hospitais, consultas foram reagendadas e devem ser regularizadas a partir de amanhã.

Como solução para os problemas da saúde pública, as entidades pedem mais investimento da União, passando de 4,4% da receita para 10%, e a criação de uma carreira de Estado para médicos. O presidente do Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers), Rogério Wolf de Aguiar, questiona medidas do governo:

– Podemos ter 30 médicos por mil habitantes e as emergências continuarão superlotadas. Mais Médicos não resolve a falta de leitos e infraestrutura.

GREVE NÃO AJUDA A CAUSA DOS MÉDICOS


ZERO HORA 31 de julho de 2013 | N° 17508

PÁGINA 10 | ROSANE DE OLIVEIRA


Os dois dias de greve dos médicos podem ser importantes para chamar a atenção das autoridades, mas dificilmente conseguirão atrair a simpatia da população, especialmente dos usuários do Sistema Único de Saúde, que clamam por melhores serviços e penam por meses, às vezes anos, para conseguir uma consulta especializada. Como explicar a um paciente que sua consulta ou procedimento eletivo foi suspenso porque os profissionais paralisaram as atividades em protesto contra a intenção do governo de contratar estrangeiros para cidades onde os brasileiros não querem trabalhar?

Os médicos têm razão quando reclamam da falta de estrutura das unidades básicas de saúde, da carência de recursos nos hospitais, da insegurança nas periferias das grandes cidades, do marasmo de viver em uma pequena cidade do Interior. Será a greve o melhor caminho para melhorar esse quadro?

Quem precisa dos serviços de saúde e vive nesses lugares inseguros ou remotos exige uma resposta do governo. Por isso, a maioria dos prefeitos aderiu ao programa Mais Médicos. Como o número de profissionais dispostos a trabalhar 40 horas por semana em troca de uma bolsa de R$ 10 mil mensais ficou abaixo da necessidade, o governo terá de recorrer aos estrangeiros. A greve só reforça nos usuários a percepção de que faltam médicos – e que é melhor um estrangeiro do que nada.

A demanda dos médicos por um plano de carreira semelhante ao de juízes, promotores e defensores públicos é legítima. Afinal, é infinitamente mais difícil entrar em um curso de Medicina do que em um de Direito. O curso de Medicina é mais longo (e mais caro nas faculdades privadas). Só os concursos são mais fáceis do que para as “carreiras jurídicas”, justamente porque os baixos salários atraem poucos médicos. O problema é como pagar vencimentos que variam de R$ 17 mil a R$ 24 mil para um exército de médicos com dedicação exclusiva ao setor público. Essa conta não pode ser ignorada com o discurso de que tudo se resolve com vontade política.

terça-feira, 30 de julho de 2013

VARGAS LLOSA E O PROTESTO DOS MÉDICOS

ZERO HORA 30 de julho de 2013 | N° 17507

 Gilberto Schwartsmann*



Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, em seu ensaio sobre a cultura de nosso tempo, retratado na obra La civilización del espectáculo (Ed. Alfaguara, Buenos Aires, 2013), descreve a opção das sociedades de hoje pelo inculto, superficial e efêmero, em detrimento da cultura mais lapidada, profunda e duradoura.

A cultura, que no passado serviu de inspiração e salvaguarda para nossa consciência, foi substituída pelo entretenimento, intelectualmente pobre, mas capaz de dar prazer, chocar ou surpreender. A experiência literária mais reflexiva perdeu espaço para as mensagens telegráficas, a autoajuda e os efeitos audiovisuais.

Se o desejo oculto deste novo mundo era acabar com as elites, para que houvesse uma “cultura para todos”, o remédio se tornou pior do que a doença. Horizontalizou-se tanto o saber, que se perdeu a hierarquia. E hoje não sabemos diferenciar com clareza o culto do inculto. Aceitamos como arte obras que nada nos dizem do ponto de vista estético ou afetivo. O conceito tornou-se tão elástico, que tudo é arte e nada é arte.

Na política, a opção pelo supérfluo se revela na pouca importância que damos à educação formal e valores morais daqueles que nos representam, legando à sociedade tribunos despreparados e empobrecidos culturalmente.

Na medicina, ainda que sejamos respeitados pela comunidade e até idolatrados por alguns, somos também vítimas do desprezo pela erudição. Confundidos pela falácia de que somos todos iguais, o que definitivamente não somos, acabamos dominados pelos incultos, representados na saúde pública e na academia pela figura do gestor despreparado ou pelo político que assume cargo para o qual não tem competência.

Médicos renomados, que representaram o que tínhamos de melhor na saúde, como Adib Jatene ou o saudoso Carlos César de Albuquerque, acabaram traídos pela máquina do poder, que decide o que imagina ser bom para todos, sem perguntar para quem sabe.

Como é caro o preço da arrogância! Os jovens, que foram às ruas em protesto, assustaram tanto os políticos, que os fizeram disparar medidas estapafúrdias para todos os lados. E políticos não são ingênuos, escolheram fazer demagogia na saúde, pois sabem que saúde o povo valoriza. Mas fizeram como fazem sempre. Não perguntaram antes para quem sabe. Tivessem consultado os bons políticos, não errariam. Estes se cercam de gente que conhece saúde. Mas não foi o caso.

E o governo conseguiu o inimaginável: uniu toda a classe médica brasileira! Em mais de 30 anos de profissão, nunca havia visto tantos médicos participando em protestos de rua! Até os aposentados saíram em passeatas. Algo de bom tem de sair desta história!

Quem sabe, este movimento em defesa da saúde e do papel do médico na sociedade possa ter um sentido mais amplo. Faça soprar uma brisa nova na direção de uma cultura mais elevada, como reclama Vargas Llosa, na qual cultivemos o respeito ao ser humano e o direito do cidadão de ser cuidado e educado, simplesmente por ter nascido. O enfrentamento civilizado dos médicos, em oposição às recentes ações equivocadas do governo, é uma oportunidade de se fazer justiça.

.*MÉDICO E PROFESSOR

PASSO PROMISSOR

ZERO HORA 29 de julho de 2013 | N° 17506

EDITORIAIS


É promissora a atitude do governo federal de alocar os dois anos adicionais na formação de médicos no período de residência e não mais na graduação. Em nota conjunta, a medida foi qualificada de positiva pelos ministros da Saúde, Alexandre Padilha, e da Educação, Aloizio Mercadante, na quinta-feira, depois de reunião do comitê de representantes da Associação Brasileira de Educação Médica, da comissão de especialistas vinculada ao Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação (CNE). A residência médica passaria a ser obrigatória para os profissionais formados no país depois de 2021.

Vale lembrar que a melhoria da graduação faz parte do tripé de medidas sobre o qual se apoia o Programa Mais Médicos, do governo federal – as outras são o chamamento de médicos estrangeiros e a expansão do ensino. Numa primeira versão, a ideia era ampliar a duração da graduação, criando-se um segundo ciclo para prestação de serviços no Sistema Único de Saúde (SUS), ainda que estivesse prevista a alternativa de oferecer os dois anos adicionais como residência. Desde o anúncio do programa, no dia 8 de julho, entidades de classe fizeram uma série de críticas às proposições e chegaram a ameaçar recorrer à Justiça. Embora mantenham a diretiva de que o período extra seja cumprido no SUS, os ministros deram uma demonstração de apreço pelo diálogo e pelo respeito à diversidade de opiniões ao recuar, na prática, da posição inicial.

No primeiro mês de seleção, o Programa Mais Médicos obteve adesão de 3.511 municípios, cifra que equivale a 63% do total e a 92% dos considerados prioritários para a iniciativa. Esses números refletem uma justa e compreensível expectativa da sociedade em relação ao programa. O Executivo precisa demonstrar sensibilidade em relação às demandas dos profissionais de medicina e compromisso com a qualidade do ensino superior.

MAIS MÉDICOS

ZERO HORA 27 de julho de 2013 | N° 17504

Adesão a programa chega a 70% das cidades gaúchas

Inscrições atraíram 18,4 mil profissionais e 3,5 mil municípios brasileiros



O Ministério da Saúde anunciou ontem que 18.450 profissionais e 3.511 prefeituras (63% dos municípios) se inscreveram para participar do primeiro ciclo de contratações do programa federal Mais Médicos. No Estado, 1.323 médicos e 346 municípios, cerca de 70% das prefeituras gaúchas, aderiram.

Até o próximo domingo, os profissionais brasileiros inscritos podem selecionar seis municípios onde querem atuar. Um ponto que chamou a atenção do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, foi a quantidade de médicos com registro profissional inválido – 8,3 mil. Eles têm até domingo à meia-noite para a correção.

Os critérios de seleção serão ordem de inscrição, proximidade com estado de origem e escolha do local de acordo com a necessidade do município. Mas, se as vagas não forem preenchidas, médicos estrangeiros poderão ser chamados. O prazo para estes apontarem as cidades vai até 8 de agosto. Um novo período de inscrições será reaberto em 15 de agosto.

– A expectativa de que menos de mil médicos estrangeiros se inscrevessem foi atingida – disse Padilha.

Alto número de inscritos não surpreende entidades

Padilha ressaltou que não houve nenhuma região com adesão inferior a 50% e que 90% dos municípios prioritários manifestaram interesse. Amazonas, com 97% dos municípios cadastrados, e Amapá, com 94%, foram os Estados com maior adesão. – O programa não quer substituir nem demitir médicos. Quer aumentar o número de profissionais – afirmou.

A alta adesão não surpreende as entidades médicas do Estado, que olham o programa com reservas. Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do RS (Cremers), Rogério Aguiar, o problema da saúde não se reduz à questão dos médicos. Segundo ele, Porto Alegre tem o segundo maior número de médicos do país e, mesmo assim, encontra problemas devido à falta de leitos. Para o Cremers, o programa é emergencial e provisório.

Maria Rita Assis Brasil, vice-presidente do Sindicato Médico do RS (Simers), entende que o programa deverá contentar os gestores municipais, pois o pagamento será feito pela união. Porém, considera discutíveis as condições de trabalho.

Ontem, o presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, negou o pedido de liminar da Associação Médica Brasileira (AMB) contra o Mais Médicos. Lewandowski ressaltou que paralisar o programa neste momento geraria prejuízo à população.

LARA ELY

NÚMEROS. O balanço das inscrições
- 18.450 médicos brasileiros inscritos no programa
- 1.323 médicos no RS
- 3.511 municípios brasileiros apresentaram inscrição
- 346 municípios aderiram no Rio Grande do Sul
- 92% das cidades prioritárias aderiram
- 58 municípios prioritários no Estado se inscreveram
- 1.910 médicos formados no Exterior fizeram inscrição
- Mais de 60 países fizeram cadastro
- Espanha, Argentina e Portugal são os países que mais inscreveram médicos
- Dos inscritos, 8,3 mil têm registro de CRM inconsistente
- R$10 mil será o salário dos médicos selecionados
- 12 mil vagas serão abertas para residência médica no país

CALENDÁRIO
- Até domingo, os profissionais brasileiros inscritos podem escolher os municípios onde querem atuar
- 8 de agosto é a data limite para os profissionais de fora do Brasil selecionarem os seus municípios
- 15 de agosto é a data de abertura do segundo ciclo para inscrições

SAÚDE É O MAIOR PROBLEMA DO BRASIL

ZERO HORA 27 de julho de 2013 | N° 17504

A PAUTA DO ELEITOR

Pesquisa detalha clamor das ruas. 
Ibope indica que, para os brasileiros, a saúde é o maior problema do país, seguida de educação, segurança, drogas e corrupção


Ao ouvir mais de 7,6 mil pessoas em todo o país após os protestos de junho, o Ibope conseguiu fazer um retrato do descontentamento dos brasileiros. No geral, as pessoas estão satisfeitas com a vida que levam, mas querem mais dos governantes – principalmente na saúde.

Questionados sobre os maiores problemas do país, sobre as áreas em que o governo federal tem pior desempenho e sobre quais devem ser as prioridades do Planalto, os eleitores convergem para os mesmos setores: além da saúde – campeã absoluta na lista de preocupações do cidadão –, aparecem repetidamente educação, segurança, drogas e corrupção. São os mesmos pedidos que apareciam nos cartazes dos manifestantes de junho. A sondagem foi realizada pelo Ibope entre os dias 9 e 12 de julho. Na quinta-feira, o instituto apresentou uma parte dos dados, relacionada à avaliação do governo Dilma Rousseff e dos governos estaduais. Ontem, divulgou o restante das informações, referentes a diversas áreas da vida nacional.

A maioria dos brasileiros (77%) está satisfeita ou muito satisfeita com a vida que leva. No Rio Grande do Sul, o cenário não é o mesmo: 70% dos entrevistados se disseram satisfeitos ou muito satisfeitos. Os gaúchos também destoam em relação ao governo Dilma Rousseff. Segundo o Ibope, Minas Gerais e Rio Grande do Sul são os locais com a população mais descontente com o apoio dado pela administração federal ao Estado. Esses são os Estados em que Dilma nasceu e fez carreira profissional.

Entre os 602 entrevistados no RS, 73% acreditam que o Estado precisa de ajuda federal para oferecer serviços públicos adequados – o maior percentual entre as 11 unidades da federação avaliadas pelo instituto. Os gaúchos se dizem insatisfeitos quanto ao apoio federal nas áreas de segurança (86%), educação (84%) e saúde (83%). As reclamações também atingem o Palácio Piratini: 78% acreditam que o governador Tarso Genro e seus secretários utilizam mal os recursos públicos.

A maioria dos brasileiros se diz favorável às manifestações que ocorreram pelo país: 50% disseram aprová-las e 39% disseram serem favoráveis desde que sem casos de violência e vandalismo. Porém, a maioria (58%) afirmou que não pretende participar de protestos caso eles voltem a se repetir. Questionados sobre os motivos que os levariam sair às ruas, os entrevistados voltaram os temas dos cartazes: saúde, educação, segurança e combate à corrupção – mais um indicativo das prioridades da população.

UTI PEDIÁTRICA FECHADA

ZERO HORA 26 de julho de 2013 | N° 17503


CRISE AMPLIADA. UTI será fechada em Novo Hamburgo


Enquanto pipocam casos de falta de leitos para crianças, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos, a única UTI pediátrica da região fechará as portas em agosto. A falta de médicos pediatras intensivistas é o motivo alegado pela direção do Hospital Regina para encerrar o atendimento na unidade.

Atualmente, somente quatro médicos são responsáveis por atender os seis leitos da UTI. Desde o início do ano, foram 117 internações. O número ideal de pediatras intensivistas, conforme a direção do hospital, seria o dobro: oito. A justificativa de falta de profissionais foi rebatida pelo presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes.

– A maioria dos hospitais quer remunerar o profissional especialista como um recém-formado. O pediatra intensivista estudou pelo menos 11 anos para se formar nessa área. Deveria ganhar pelo tempo de estudo e pela sua especialização – diz Mendes, comparando o fato de o piso da categoria para 20 horas ser de R$ 10 mil.

A Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul também discorda do motivo alegado pelo hospital.

– Todas as vagas oferecidas para a residência em pediatria são preenchidas. O principal problema é o salário oferecido. Quem sofre é a população, que vai ter que se deslocar até Porto Alegre para receber um tratamento adequado – comenta Patrícia Miranda do Lago, presidente da entidade.

O Hospital Regina, mantido pela Associação Congregação de Santa Catarina, não quis revelar os valores pagos aos atuais pediatras intensivistas nem o ofertado no mercado. A UTI pediátrica da instituição é exclusiva para convênios e particulares.

JOÃO VITOR NOVOA

NÚMEROS

As UTIs pediátricas no RS
- O Estado tem 234 médicos especialistas.
- São 33 UTIs pediátricas.
- Os médicos demoram, no mínimo, 11 anos para adquirirem a especialização nessa área
- Hospital Regina, em Novo Hamburgo, é o único no Vale do Sinos com o serviço
- Na UTI pediátrica do Regina houve 117 internações desde janeiro deste ano
Fonte: Fonte: Sociedade de Pediatria do RS

BEBÊ PEREGRINA NA LUTA PELA VIDA


ZERO HORA 26 de julho de 2013 | N° 17503

 LUTA PELA VIDA - Recém-nascido espera há quatro dias por um leito

Família peregrina por hospitais em busca de vaga para bebê, diagnosticado com problema cardíaco



Desde domingo, a família de Kaiki Cimirro dos Santos bate, de porta em porta, nos hospitais de Porto Alegre em busca de uma chance de vida para o recém-nascido. O menino veio ao mundo, na sexta-feira passada, com um problema cardíaco que requer cirurgia urgente.

Como não há leitos pós-operatórios disponíveis, a criança está há mais de 90 horas em coma induzido – com ajuda de aparelhos e de medicamentos. E, ainda que a Justiça tenha concedido liminar à família, obrigando o Estado a providenciar uma vaga, até as 21h de ontem, não havia perspectiva de solução para o problema.

– Poucas horas depois (de mãe e filho terem alta), tivemos de voltar ao hospital porque o Kaiki estava ofegante e com a boquinha branca. Chegando lá, logo foi internado. Pediram para que eu não saísse de lá, porque a situação era grave – explica o pai, o motorista Christian dos Santos, 28 anos.

Kaiki nasceu no Hospital Conceição e, segundo a mãe, Patrícia Cimirro, 29 anos, a enfermeira que lhe entregou o filho após o parto disse que os batimentos cardíacos estavam alterados.

– Ela disse que era normal, que 99% dos bebês nascem com essa alteração. Só que meu filho faz parte daquele grupo que deveria ter tido o problema diagnosticado antes de ter de voltar ao hospital quase morto – alega a mãe.

Quando passou mal, em casa, no domingo à noite, Kaiki foi levado até o Hospital da Criança, que também integra o Grupo Hospitalar Conceição. De acordo com o que médicos explicaram ao pai, a criança nasceu com hipoplasia no ventrículo esquerdo – este lado do coração não se desenvolveu totalmente. E não pode bombear sangue suficiente para atender às necessidades do corpo da criança.

– É uma cirurgia complicada. Os médicos disseram que só pode ser feita no Hospital Santo Antônio ou no Instituto de Cardiologia – diz o pai.

Nem mesmo ordem judicial ajudou na busca por hospital

Segundo o gerente de internação do Hospital da Criança Conceição, Lauro Luís Hagemann, a hipoplasia ocorre devido à diferença nas circulações fetal e pós-natal do bebê. Ou seja, a criança pode nascer sem ter o problema, que é detectado quando ocorre o fechamento da circulação fetal, podendo acontecer em até 15 dias após o nascimento. Por isso a doença foi percebida somente após a alta hospitalar. O problema poderia ter sido antecipado por meio de ecocardiografias durante a gestação, mas é um procedimento caro e faltam aparelhos e profissionais. O chamado “Teste do Coraçãozinho” também poderia antever a doença. Porém, detecta a hipoplasia em apenas um terço dos casos.

Na segunda-feira, a família recorreu à Justiça e conseguiu uma ordem judicial para obter um leito para o bebê. A documentação foi entregue apenas no Hospital de Cardiologia. De acordo com o pai, a médica que atende Kaiki no Hospital da Criança teria informado que o responsável pelos leitos do Hospital Santo Antônio não estava em Porto Alegre, e que, infelizmente, nesta semana, restaria somente uma opção para o recém-nascido.

A ordem judicial venceu na terça-feira sem que o bebê conseguisse leito.

– A gente sabe que não é culpa dos hospitais. Dizem que não há leitos e que tem, inclusive, outros bebês na fila. Enquanto isso, rezamos para que ele resista. A nossa vida tem sido dentro do hospital – lamenta a mãe.

*Colaborou Lara Ely

BRUNA SCIREA*

CONTRAPONTOS

O que diz a chefia da UTI pediátrica do Hospital de Cardiologia - O atendimento está sendo feito acima da capacidade. Há 10 leitos na unidade. Mas 12 crianças já estão sendo atendidas.

O que diz o Hospital da Criança Santo Antônio, por meio de assessoria - Não há vagas porque os 30 leitos da UTI pediátrica estão lotados. Neste caso, não há lista de espera. A lista é apenas para internação em quarto. A cirurgia de Kaiki depende da alta de um paciente, o que pode ocorrer a qualquer momento, como pode demorar.

O que diz a Central de Regulação de Leitos de UTI do Estado - O nome de Kaiki não está cadastrado na na Central de Regulação. A disponibilidade de leitos para um caso como o dele não é informado, apenas de médico para médico.

O que diz a Central de Leitos do Município - Confirma que não há leitos disponíveis no momento e que a situação do menino, que é estável, está sendo monitorada.

A FRUSTRAÇÃO

ZERO HORA 26 de julho de 2013 | N° 17503

REPÓRTER NA SAÚDE

A frustração após um breve alívio de Valdemar

A irmã de Valdemar Cantareli, Maria Aida Cantareli Pereira, 73 anos, moradora de Pelotas, o esperava na porta. Os dois entraram na sala de espera da oncologia às 7h11min, mas foram avisados que o médico só chegaria às 8h. Valdemar foi implantar um cateter para que as próximas sessões de quimioterapia fossem mais fáceis. Mesmo chegando cedo, recebeu a ficha branca 57.

– Ficha branca: 1, 2, 3, 4, 5 e 6 – chamava uma funcionária às 8h16min.

– Bah, mas será que está certo? – perguntou Valdemar, já imaginando que seria um daqueles dias em que o paciente chega às 8h e só vai embora às 17h.

– Não pode ser! – disse a irmã, que já foi correndo para o balcão e voltou faceira com a ficha 6 – As fichas estavam embaralhadas.

Mas o alívio durou pouco. Na consulta, o médico viu que havia sido feito um encaminhamento errado. O procedimento deveria ser realizado onde o aposentado fazia o tratamento, no Hospital da Santa Casa.

– Agora tudo de novo, só na terça-feira – disse, frustrado.

O governo elege cidades para serem polos de alguma especialidade, para conseguir recursos e equipamentos a fim de garantir a saúde de moradores de toda uma região. Passo Fundo, com 183 mil habitantes, tem mil leitos hospitalares, sendo referência a mais de 300 municípios.


CONTRAPONTOS

O que diz o Hospital Escola da UFPel, por meio da assessoria de imprensa - Sobre a internação de 12 dias de Holdina, quatro anos atrás, por falta de equipamento, a instituição informa que esse tipo de problema já foi solucionado. Em relação à distribuição de fichas pela manhã a pacientes que acabam sendo atendidos à tarde, o hospital informa que as fichas são distribuídas conforme a ordem de chegada. Mas argumenta que, no agendamento prévio, o paciente já sabe em qual turno será atendido. Geralmente, quem se desloca de outros municípios aproveita a carona da prefeitura e pode chegar pela manhã, mesmo sabendo que o atendimento é à tarde.

O que diz a prefeitura de Pelotas - Até a noite de ontem, a Secretaria Municipal de Saúde, responsável por definir para qual unidade cada paciente deve ir em Pelotas, não havia informado a razão do encaminhamento errado de Valdemar Cantareli.

PACIENTES VIAJANTES

ZERO HORA 26 de julho de 2013 | N° 17503

REPÓRTER NA SAÚDE

A rotina de pacientes que viajam por atendimento. Moradores de Morro Redondo, no Sul, enfrentam cansativa jornada para tratamento contra o câncer



São 4h45min, o dia nem amanheceu em Morro Redondo, no sul do Estado, e Holdina Güthn Vhl, 64 anos, está de pé com “quatro mangas”, como diz, para suportar os 3°C marcados no termômetro no trevo da cidade. Dessa vez não se levantou cedo por causa da lavoura, como costumava fazer até quatro anos atrás.

Omotivo que a fez parar de trabalhar é o mesmo que a desperta: uma leucemia. Na quarta-feira, ela esperava um micro-ônibus da prefeitura em uma parada para fazer o deslocamento até a cidade referência de oncologia na região, Pelotas.

A proposta do governo é de que pequenos municípios como Morro Redondo – com 6.231 habitantes – tenham apenas atendimentos básicos. Na cidade, há três postos de saúde e um hospital com clínico geral, ginecologista e pediatra. O restante das especialidades e procedimentos de maior complexidade tem de ser feito em municípios vizinhos, como Rio Grande, Bagé, Piratini e Pelotas.

– Temos viagens marcadas todos os dias. Nosso micro-ônibus, com 23 lugares, geralmente sai todas as manhãs e, quando necessário, também ao meio-dia. No último mês, foram mais de 130 pacientes deslocados – calcula a secretária municipal de saúde, Idelvani Tessmer Muller.

Às 6h06min de quarta-feira, o veículo começou a buscar sete pacientes para levá-los a Pelotas. A cada embarque vinha um “bom dia” baixinho. Quando o sol começava a se espreguiçar no horizonte, 43 quilômetros e 57 minutos depois, os pacientes desembarcavam no Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

– A gente liga pro senhor quando estiver liberado, tá, seu Bruno? – disse o paciente Valdemar Cantareli, 70 anos, ao motorista.

Em uma sala de espera, Holdina aguardava para fazer um exame anual. Entrou às 7h12min e foi atendida às 8h30min:

– Rapidinho! – avaliou, comparando com o tempo que ficou internada no hospital quando descobriu a doença: 12 dias para fazer um exame “porque eles não tinham as agulhas”, conta ela. Depois, mais espera. Ela ligou para o posto de Morro Redondo, e um carro de um funcionário foi buscá-la, com outro casal de idosos. Às 10h45min, os três pegaram a estrada de novo.

JÚLIA OTERO | MORRO REDONDO


terça-feira, 23 de julho de 2013

EMERGÊNCIAS DE PORTO ALEGRE SUPERLOTADAS

CORREIO DO POVO 23/07/2013 10:45

Emergências de Porto Alegre estão superlotadas pelo segundo dia seguido. Adultos e crianças se aglomeram à espera de atendimento


As emergências dos principais hospitais de Porto Alegre estão superlotadas na manhã desta terça-feira. Algumas unidades operam no limite, mas não há informações sobre restrições ao atendimento.

No Hospital Conceição, há 95 pacientes no setor com capacidade para 50. No Hospital de Clínicas, a emergência adulta tem 49 leitos, mas atende 107 pessoas. Na pediátrica, 12 crianças são atendidas, onde o limite é nove. No Hospital São Lucas da PUCRS, somente no setor destinado a pacientes do SUS, com 13 leitos, 24 pessoas são atendidas. Na Pediatria, dez crianças ocupam quatro leitos a mais que a capacidade do setor.

No Hospital Santa Clara do Complexo da Santa Casa de Misericórdia, são atendidos 41 pacientes, 15 a mais do que a capacidade. No Dom Vicente Scherer, responsável pelo atendimento aos pacientes particulares ou por convênio, 20 adultos são atendidos em 14 leitos.

Fonte: Dico Reis / Rádio Guaíba

sábado, 20 de julho de 2013

SEM AUTORIZAÇÃO, ESTRANGEIROS ATUAM EM HOSPITAIS DA FRONTEIRA

Grupo se vale de decisão judicial que beneficia só médicos do Uruguai

FLÁVIO ILHA 
O GLOBO
Atualizado:19/07/13 - 22h55

Na Santa Casa, 25 de 85 profissionais têm autorização da Justiça para atuar no BrasilFeessers / Divulgação


PORTO ALEGRE — Sob a tutela de uma decisão judicial que permite o trabalho de médicos uruguaios em sete cidades da fronteira entre Brasil e Uruguai, no Rio Grande do Sul, pelo menos 11 profissionais de outras nacionalidades estão atuando de forma irregular em território brasileiro. Informações obtidas pelo GLOBO indicam que um dominicano, uma peruana e nove cubanos estão trabalhando em hospitais de Santana do Livramento e Quaraí, sem autorização.

A liminar da Justiça Federal em Santana do Livramento foi concedida em novembro de 2011 para suprir a falta de médicos nos hospitais dessas cidades, carência confirmada pelas instituições de Saúde — os hospitais não só defendem a atuação dos estrangeiros como são autoras do pedido para que os médicos atuem no Brasil. A decisão, porém, vale apenas para profissionais do Uruguai que residam do outro lado da fronteira.

Uso de registros fictícios

A liminar, que está sendo contestada pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers), fez com que os hospitais da fronteira fossem tomados por médicos uruguaios. No Hospital de Caridade de Quaraí, que faz divisa com a uruguaia Artigas, o número de estrangeiros passou de quatro, no início de 2012, para 11, em julho deste ano. É mais da metade do quadro de 20 profissionais do hospital, que atende cerca de 2 mil pessoas por mês. Pelo menos, dois deles não são uruguaios.

Em Santana do Livramento, na fronteira com Rivera, a liminar beneficiava dois médicos. Hoje, já são 25 profissionais estrangeiros atuando na Santa Casa do município. A instituição tem 85 médicos.

No Centro Hospitalar Santanense (CHS), médicos estrangeiros atuam principalmente no serviço de remoção prestado pela instituição em convênio com a Secretaria da Saúde. São pelo menos nove profissionais cubanos nessa situação, que atuam sem registro em ambulâncias que circulam por 40 cidades.

Os boletins de atendimento do serviço móvel de urgência mostram médicos identificados apenas com o primeiro nome ou com o número de registro fictício. Em outros documentos, há prescrições médicas imprecisas ou ilegíveis. Em caso de erro médico, os profissionais estrangeiros sem registro no Brasil não podem ser responsabilizados criminalmente.

A liminar concedida pelo juiz Belmiro Nascimento Krieger, da Vara Federal de Santana do Livramento, beneficiou hospitais de sete cidades fronteiriças e foi motivada por uma ação impetrada pelo Cremers contra as contratações. Podem contratar médicos uruguaios as cidades de Aceguá, Barra do Quaraí, Chuí, Jaguarão, Santana do Livramento, Santa Vitória do Palmar e Quaraí.

A decisão da Justiça se baseou no Ajuste Complementar para Prestação de Serviços de Saúde, promulgado pelo decreto 7.239, de 2010. O decreto incluiu a permissão para que estrangeiro uruguaio fronteiriço, devidamente habilitado para o exercício de sua profissão em seu país, possa prestar serviços de Saúde no Brasil nos limites da pertinente localidade fronteiriça vinculada.

Nenhum dos médicos estrangeiros tem registro profissional no Brasil, o que impede a utilização de receituário e a prescrição de medicamentos. Quando isso é necessário, a receita precisa ser “revalidada” por um especialista brasileiro. Entre os 11 estrangeiros do Hospital de Caridade de Quaraí, há nove uruguaios, um médico dominicano e uma profissional peruana. Pelo menos metade dos uruguaios estudou em universidades cubanas, com as quais o país tem convênios.

“Única forma de atendimento”

A diretora administrativa do Hospital de Caridade, Daniele Garcia, admite que nenhum dos 11 médicos tem registro legal para atuar no Brasil, mas justifica que é a única forma de garantir atendimento à população. Os médicos recebem entre R$ 7 mil e R$ 9 mil mensais para atuarem como plantonistas e também nas Unidades de Saúde da Família (USF). No grupo há dois anestesistas, três cardiologistas, um pediatra, um ginecologista e quatro clínicos.

— Sem os estrangeiros, não daríamos conta da demanda. Mesmo tendo de revalidar receituário, são os estrangeiros que garantem o atendimento aqui no hospital — relata Daniele.

A diretora técnica da Santa Casa de Livramento, Maria Helena Padilha, sustenta que parte dos profissionais uruguaios, autorizados pela Justiça, já teve os diplomas revalidados.

Sem fiscalização no Uruguai

Já o diretor do CHS, Vânios Domingues, nega o emprego de cubanos no serviço de locomoção prestado pela Movilcor, empresa de atendimento pré-hospitalar associada da instituição. Porém, admite que a falta de controle sobre o exercício profissional no país vizinho facilita a contratação clandestina.

— Há uma carência grande de médicos aqui e, por outro lado, no Uruguai não tem conselho de fiscalização. Isso facilita — afirma Domingues.

O Cremers advertiu que brasileiros que revalidam receitas médicas podem ser punidos.

— Oficialmente não podemos sequer reconhecer que esses médicos estão atuando no Brasil porque não há registro algum. Há uma enorme área de sombra — diz o presidente do Cremers, Rogério Aguiar.

A Justiça Federal em Livramento informou que a decisão judicial somente vale para a contratação de médicos de nacionalidade uruguaia e que sejam residentes nas cidades de Rivera e Artigas. Segundo nota publicada pelo juiz federal Belmiro Nascimento Krieger, que concedeu as autorizações, “eventual contratação feita em desconformidade com a decisão judicial poderá ostentar irregularidade”.

Segundo o juiz, inexiste impedimento à emissão de receitas médicas e solicitação de exames pelos médicos uruguaios, pois “são atribuições inerentes ao exercício da Medicina”. Segundo o comunicado, a decisão autoriza tais procedimentos, “embora implicitamente”.


FALTA DE MÉDICOS RELACIONADA À EXIGÊNCIA SALARIAL E AOS CRESCIMENTO DAS ESPECIALIZAÇÕES





ZERO HORA 20 de julho de 2013 | N° 17497

POSTOS DA CAPITAL. Especialista relaciona os problemas

O secretário municipal da Saúde, Carlos Henrique Casartelli, tem dito que, além da exigência de salários altos, há outro fator que contribui para a carência de médicos de saúde básica. É a tendência de crescimento do número de especialistas, enquanto ocorre redução de clínicos gerais no país. Isso gera déficit na atenção primária.

Médica sanitarista, especialista em Saúde Pública e professora da Escola de Administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria Ceci Misoczky considera que problemas se somam para acarretar a falta de médicos.

De um lado, ela acredita que o piso salarial exigido – R$ 20 mil por 40 horas – é fora dos valores de mercado e isso traz, com certeza, dificuldades para quem vai pagar: no caso, a prefeitura. É uma questão de adaptar a exigência à realidade da região em que se vive, pondera Maria Ceci. A isso se soma o fato de que muitos médicos preferem ser especialistas, mesmo que ainda existam clínicos gerais, mais exigidos na área da saúde básica.

Estabilidade seria alternativa

A médica faz uma forte crítica ao regime de contratação dos profissionais que irão atuar na periferia. Ela diz que a prefeitura oferece muitos contratos ainda sem qualquer estabilidade, sem garantias existentes para funcionários públicos de carreira, sem vantagens adicionais comuns a locais de difícil acesso ou periculosidade. Até por isso, os médicos querem ganhar mais, e os sindicatos pressionam por um piso salarial maior.

Maria Ceci exemplifica que, como professora, tem uma série de benefícios que não teria nos contratos celetistas que as prefeituras costumam celebrar. Ela afirma que a inexistência de estabilidade e a possibilidade de ser dispensado a qualquer momento gera uma relação “perversa”, com prejuízo para a categoria. A saída seria estabilidade para todas as vagas faltantes.

– Dificuldade de encontrar médico, mesmo, existe no Interior, na faixa de fronteira. É difícil convencer algum a morar lá. Mas na periferia das capitais, basta oferecer um regime de trabalho justo. Duvido que os profissionais, com algumas garantias trabalhistas, deixem de atuar nas vilas. Eles irão. Eu mesma comecei na Vila Cruzeiro – interpreta Maria Ceci.



UM PARTO PARA ABRIR UMA UNIDADE

ZERO HORA 20 de julho de 2013 | N° 17497

POSTOS DA CAPITAL. Nove meses de espera para abrir uma unidade


Quem procura a Unidade de Saúde da Família (USF) da Vila Nova Ipanema, na zona sul de Porto Alegre, é informado ao chegar ao prédio: não há médico, a exemplo de outros postos.

– E a falta é crônica. Quase nunca tivemos, desde que o posto foi inaugurado, em 2009 – diz uma funcionária, que prefere o anonimato por temer represálias.

Os moradores só não reclamam muito porque ali é possível encontrar assistência básica. Medir pressão, controlar diabetes, obter medicamentos para esse tipo de doença, fazer curativos e tratar resfriados, por exemplo. Já para qualquer procedimento mais sofisticado, é preciso se locomover alguns quilômetros.

O cenário na Vila Nova Ipanema também já foi rotina no outro lado da cidade, na Zona Norte. A Unidade de Saúde da Família Domênico Feoli, no bairro Rubem Berta, ficou pronta em outubro do ano passado, mas só foi inaugurada na semana passada – nove meses após o último tijolo ser assentado no prédio.

É que a prefeitura simplesmente não conseguia médicos para trabalhar lá, desabafou o prefeito José Fortunati, na cerimônia de inauguração.

Duas equipes partilham clínico

A USF é um antigo sonho dos moradores daquele bairro, um dos mais populosos da Capital. Vai atender cerca de 90 mil pessoas da região. Ela foi construída pelo Estado, como uma contrapartida no Projeto de Prevenção à Violência do município.

Zero Hora esteve lá na quarta-feira, um dia após ser inaugurada. Todos os enfermeiros, técnicos de enfermagem e o dentista previstos estavam no local. E um médico. Mas falta outro. Nesse caso, as duas equipes de saúde familiar – que visitam pacientes em casa – têm de partilhar o único profissional disponível.

Mas o atendimento básico no posto (vacinas, curativos, suturas, medicamentos de uso crônico etc) é permanente.

Os pacientes, em sua maioria idosos, são pré-cadastrados. Alguns já frequentavam outros postos de saúde comuns. Agora terão oportunidade de atendimento personalizado.

É o caso da cozinheira aposentada Maria de Lurdes Rodrigues Martins, 82 anos, que na quarta-feira compareceu à unidade Domênico Feoli para monitorar seus males: pressão alta, angina e uma cirurgia na cabeça que ainda provoca muitas dores, seis anos depois de realizada.

– Faço essa consulta agora e depois vou aguardar o médico em casa, nas próximas. É outra coisa. Como no tempo em que a gente tinha médico de confiança, que conhecia a gente pelo nome – comemora Maria de Lurdes, natural de Guaíba.

A CARÊNCIA DE MÉDICOS






ZERO HORA 20 de julho de 2013 | N° 17497

POSTOS DA CAPITAL

Levantamento da prefeitura de Porto Alegre revela que parcela significativa das vagas previstas está aberta devido à falta de candidatos. Representantes da categoria reclamam da remuneração oferecida e da insegurança para atuar nas áreas mais pobres.


HUMBERTO TREZZI

Um cartaz com aviso colado na porta da Unidade de Saúde da Família Moradas da Hípica, no bairro Hípica, zona sul de Porto Alegre, desanima quem busca atendimento.

“Atenção: comunicamos a população que estamos sem médicos. Motivos: dr. em férias, dra. fraturou a mão, está afastada.”

Outros profissionais para males corriqueiros, como enfermeiros, estão lá. Mas as pessoas querem mesmo um médico, quando não sabem que mal as aflige. E o posto deveria ter substituto para esses casos. Não tem. E casos assim se repetem Capital afora.

A Secretaria Municipal de Saúde afirma que faltam hoje 371 médicos nos postos de saúde da cidade (para atender média recomendada pelo Ministério da Saúde). É uma carência de 52% em relação ao efetivo previsto para atuar na rede municipal de atendimento básico, que seria de 713 médicos. A prefeitura acha que, com mais 267 médicos, poderia resolver o problema, mesmo sem o número ideal. Qual seria a razão da carência?

O prefeito José Fortunati, ao inaugurar uma moderna unidade de saúde da família na Zona Norte, na semana passada, afirmou que há grande resistência dos médicos em trabalhar na periferia.

Ele falou que as vagas existem, concursos são abertos, mas que é difícil encontrar profissionais dispostos a atuar nas regiões mais carentes, mesmo com salários de R$ 10 mil mensais e jornadas de 40 horas semanais de trabalho.

O chefe do Executivo municipal, que preside a Frente Nacional de Prefeitos, voltou a dizer que essa é uma das razões pela qual apoia a proposta de trazer profissionais do Exterior para atuar no país.

– Caso os médicos não queiram vir trabalhar aqui, vamos importar médicos argentinos, portugueses ou espanhóis. Se os médicos brasileiros acham que têm mais condições que os estrangeiros, que aceitem vir atender a população carente – desabafou.

Para médicos de família, que inclusive visitam pacientes em casa, a prefeitura paga R$ 9.923,79 por 40 horas semanais de trabalho. Para os não especializados em Medicina da Família, R$ 9.027,04.

O Sindicato dos Médicos-RS (Simers) admite que muitos médicos não querem trabalhar na periferia por essa remuneração, mas ressalta que o piso estabelecido pela Federação Nacional dos Médicos é de R$ 10,4 mil por 20 horas semanais (ou R$ 20 mil por 40 horas na semana). Ou seja, exatamente o dobro do que vem sendo pago em Porto Alegre.

Filas desanimam novos candidatos

O presidente do sindicato, Paulo de Argollo Mendes, acrescenta outros dois fatores que afastam os profissionais dos postos de saúde. O primeiro é que, pela carência de profissionais, quem se sujeita a trabalhar acaba fazendo o serviço de três. O resultado são filas de pacientes, horas de espera por atendimento e irritação do doente, que é descontada no médico, diz Argollo.

– Outro ponto que inibe os médicos é que alguns lugares exibem altas taxas de criminalidade. O ideal é que o Estado construísse postos junto a unidades da Brigada Militar e escolas, concentrando funcionários públicos. É um conceito moderno e que tem de ser implementado – sugere Argollo.

O secretário municipal da Saúde, Carlos Henrique Casartelli, gosta da ideia de concentrar postos de saúde próximo a unidades policiais e admite que os médicos ligados à saúde básica estão sobrecarregados. Mas diz estranhar que não queiram trabalhar por R$ 10 mil mensais.

– O salário não é ideal, mas não é pouco. Gostaria de ganhar os R$ 20 mil que eles pedem, mas é difícil alguém custear isso – adverte.

Um levantamento recente do município mostra que a carência de médicos (total ou parcial) atinge 14 (16%) das 88 Unidades de Saúde da Família da Capital.

Casartelli ressalta que o país tem 100 mil profissionais cadastrados no programa Mais Médicos (destinado a levar assistência de saúde aos grotões) e está otimista: acredita que as vagas serão preenchidas em breve. Foi aberto processo seletivo para 15 médicos em caráter temporário e outras 44 vagas definitivas devem ser ofertadas até o final do mês.




quinta-feira, 18 de julho de 2013

A FILA DO SOFRIMENTO

ZERO HORA 18 de julho de 2013 | N° 17495

EDITORIAIS


Basta uma visita ao setor de emergência dos hospitais (como vem fazendo a série Repórter na Saúde, publicada desde domingo por Zero Hora) para se perceber o quanto o governo e as entidades médicas, envolvidos num debate sobre importação de profissionais ou ampliação dos cursos de Medicina, estão distantes da apresentação de soluções reais para os problemas imediatos vividos pelo setor. Só nesta semana, tivemos dois exemplos. Na terça-feira, a reportagem constatou que apenas um pediatra atendia todos os usuários do Sistema Único de Saúde que procuravam o Hospital Dom João Becker, o principal de Gravataí. Ontem, a série focalizou o drama da estudante e beneficiária de plano privado de saúde Juliane Lobato Flores. Com suspeita de meningite, ela amargou cinco horas na espera do Hospital Mãe de Deus, na Capital, entre segunda e terça-feira, até receber atendimento. Detalhe: Juliane é estudante de Medicina na Universidade Católica de Pelotas. Ao ser liberada, ela afirmou que todo estudante de Medicina deveria passar por uma emergência para saber como lidar com os pacientes.

O caso de Juliane é uma prova de que ficaram para trás os tempos em que atendimento na rede privada era garantia de agilidade em comparação com o disponível nas unidades do Sistema Único de Saúde (SUS). Esse quadro, como assinala o Hospital Mãe de Deus na reportagem de ZH, decorre do aumento substancial do número de beneficiários de planos de assistência médica com ou sem odontologia nos últimos anos. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar, vinculada ao Ministério da Saúde, essa cifra saltou de 32 milhões em 2003 para 47,9 milhões em 2012 – um incremento de 33% em 10 anos. Esses números indicam que, no final do ano passado, 24,7% dos brasileiros já contavam com algum tipo de cobertura por plano privado de saúde. Em três Estados da federação – São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo –, esse percentual já era superior a 30%. Ainda segundo o Mãe de Deus, em cidades como Porto Alegre os beneficiários de planos privados já superam os 50%.

Os problemas enfrentados pelos que contam com plano privado de saúde evidenciam-se nos números de reclamações contra as grandes operadoras. De junho de 2011 a maio deste ano, as queixas de usuários cresceram em quase 100%. Isso mostra que, como em todas as esferas do varejo e dos serviços, os brasileiros que aderem a planos de saúde também estão ciosos de seus direitos e querem atendimento de qualidade. Tudo isso deveria servir de alerta para autoridades e profissionais que porventura flertem com a ideia de que será possível esperar por soluções para daqui a dois anos. Pacientes, sejam beneficiários de convênio ou usuários do sistema único, precisam de atendimento para já, para hoje. Essa é a essência contida no conceito de atendimento médico de urgência e de emergência. E as necessidades não se concentram entre os que vivem longe das metrópoles ou nas periferias das grandes cidades. Sem gestão adequada, nem o sistema universal de saúde nem os planos complementares prestarão o serviço de que os usuários necessitam.

MÉDICOS PODEM PARALISAR

ZERO HORA 18 de julho de 2013 | N° 17495

JALECO BRANCO

Médicos iniciam preparativos para paralisação


Em um encontro na noite de ontem, no auditório da Associação Médica do Rio Grande do Sul (Amrigs), médicos e estudantes de Medicina gaúchos decidiram manter estado de assembleia permanente. Também começarão preparativos para fazer uma paralisação, ainda sem data definida.

Na plenária, foram discutidas maneiras de mostrar à população as precariedades do sistema de saúde e como enfrentar projetos anunciados pelo governo federal recentemente, como o programa Mais Médicos, que prevê a contratação de profissionais estrangeiros para atuação no interior e na periferia das grandes cidades. O aumento de seis para oito anos nos cursos de Medicina e os vetos da presidente Dilma Rousseff à Lei do Ato Médico também foram alvos de críticas.

No dia 23, a categoria terá nova plenária na Amrigs. As ações são organizadas por Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), Amrigs, Associação dos Médicos Residentes do Rio Grande do Sul (Ameres) e centros acadêmicos de universidades.

Na terça-feira, o governo federal anunciou a formação de uma comissão com representantes de 11 cursos de Medicina de universidades federais para discutir como os dois anos de serviço obrigatório no Sistema Único de Saúde (SUS) – previstos como segundo ciclo na formação dos médicos – podem ser incorporados ao tempo de residência. O objetivo é aprimorar as propostas do Mais Médicos.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O OUTRO LADO DE QUEM SALVA VIDAS

ZERO HORA 17 de julho de 2013 | N° 17494


Maira Caleffi*


Em meio a tantas manifestações populares, parece que o Brasil está começando a rever várias questões que há tempos estavam estagnadas em diversas áreas, com ênfase para a educação e a saúde, que estão no topo das reivindicações dos brasileiros. A população clama por um atendimento qualificado e integral, em comum acordo com o que defende há 20 anos o Instituto da Mama do RS Imama. Precisamos de diagnóstico precoce e tratamento ágil e qualificado para evitar que tantas mortes aconteçam, principalmente de câncer de mama. Mas também precisamos dar apoio à classe médica e voz a suas reivindicações.

Certamente, não é por falta de interesse ou de profissionalismo que o atendimento na área da saúde ainda deixa tanto a desejar. Faltam recursos para o exercício da profissão. Os pacientes precisam unir esforços na luta pelo acesso a estruturas dignas de atendimento. É preciso ficar muito claro que os médicos não são os vilões. Ao contrário. Trabalhamos sempre pelas melhores práticas da Medicina. E, principalmente, neste momento atual do país, precisamos estar unidos e contar com o apoio e solidariedade da população para que conheçam o outro lado da história.

Nós, que sempre fomos tão bom ouvintes na hora da “anamnese”, também precisamos ser ouvidos pelos brasileiros e demais governantes. Temos grandes profissionais no Brasil, que são referências mundiais, e com certeza não é apenas a falta de mão de obra que impede o acesso à saúde. Por exemplo, a Lei dos 60 dias, que entrou em vigor em maio – depois de muita luta por parte da classe médica –, está sendo cumprida? O paciente que detectou qualquer tipo de câncer está recebendo o tratamento devido em até dois meses? E, em caso negativo, toda a população precisa saber o que está impedindo que isso ocorra. O Brasil está preparado? Está bem aparelhado? Tem um número suficiente de técnicos e demais profissionais da área? Não é só por um número maior de médicos que precisamos lutar. Precisamos saber das reais condições de todo o sistema, pois a cada dia perdemos no país mais de 30 mulheres em decorrência somente do câncer de mama.

Por esse motivo, é importante realizarmos uma grande reflexão em meio a tantas manifestações nacionais e, justamente, no período em que realizamos uma nova edição da Semana Estadual da Luta contra o Câncer de Mama, organizada em parceria com a Assembleia Legislativa do RS. Queremos unir esforços e discutir de que forma poderemos salvar cada vez mais vidas! Afinal, acima de tudo, essa é a nossa maior missão!

*MÉDICA MASTOLOGISTA E PRESIDENTE VOLUNTÁRIA DO IMAMA – INSTITUTO DA MAMA DO RS

JALECOS NAS RUAS

ZERO HORA 17 de julho de 2013 | N° 17494

Médicos mobilizados contra atos de Dilma

Pressionado, governo criou grupo para discutir contratação de estrangeiros



Os médicos voltaram às ruas ontem para criticar medidas adotadas pelo governo federal na saúde, assim como no protesto feito no início do mês. Desta vez, estudantes, residentes e profissionais tiveram um motivo a mais para demonstrar descontentamento: o programa Mais Médicos, anunciado no último dia 8.

Em Porto Alegre, cerca de 400 pessoas participaram de caminhada, que saiu do Museu de História da Medicina do Rio Grande do Sul (Muhm), na Avenida Independência. Após passarem pelas vias Sarmento Leite, João Pessoa, Salgado Filho e Borges de Medeiros, chegaram até a prefeitura, diante do qual fizeram um protesto. Ao final do ato, uma comissão foi recebida pelo vice-prefeito Sebastião Melo.

De acordo com o presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers), Paulo de Argollo Mendes, as entidades médicas nacionais estão entrando com mandado de segurança preventivo para tentar bloquear a tramitação da Medida Provisória 621, que institui o programa Mais Médicos:

– E junto com a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), as entidades médicas estão entrando com uma Adin (Ação de Inconstitucionalidade) na Justiça para procurar garantir os direitos da população, estão sendo caçados.

Outras queixas são a sanção pela presidente Dilma Rousseff da lei do Ato Médico, com vetos aos principais pontos, e a falta de investimentos na saúde. Médicos pressionam para que o governo federal aumente o orçamento da União para a saúde de 4,4% das receitas brutas para 10%.

Para hoje, está marcada uma assembleia geral na Associação Médica do RS (Amrigs), às 19h, quando haverá votação para avaliar a possibilidade de greve no dia 23. Na semana passada, os médicos realizaram plenária, com mais de 700 participantes, e aprovaram indicativo de paralisação. Em pelo menos outros 13 Estados foram realizados atos semelhantes. Em São Paulo, a manifestação durou mais de quatro horas e tomou as ruas da área central.

Comissão para debater mudança no currículo

Ontem, uma comissão foi formada por representantes de 11 cursos de Medicina de universidades federais para discutir como os dois anos de serviço obrigatório no Sistema Único de Saúde (SUS) – previstos como segundo ciclo na formação dos médicos – podem ser incorporados ao tempo de residência. Segundo o ministro da Educação, Aloizio Mercadante, o objetivo é aprimorar as propostas do Mais Médicos, sobretudo a de levar profissionais para o Interior e para o segundo ciclo.

– Como são profissionais do SUS que vão acompanhar os estudantes, temos de definir como isso será feito – disse Mercadante, ressaltando que a comissão terá 180 dias para discutir antes de as propostas seguirem para o Conselho Nacional de Educação.

terça-feira, 16 de julho de 2013

UM PEDIATRA E MUITAS HORAS NA FILA DE ESPERA


ZERO HORA 16 de julho de 2013 | N° 17493

REPÓRTER NA SAÚDE

Demora para ser atendido é uma das principais queixas de quem recorre ao Dom João Becker

LARA ELY

Apenas um pediatra para atender todos os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Essa é a principal queixa que os pacientes da Emergência do Hospital Dom João Becker têm em relação aos serviços prestados na maior instituição de saúde de Gravataí. Ao receber doentes de toda a Região Metropolitana, o local está com o setor superlotado. O tempo de espera para atendimento não costuma baixar de três horas.

Em dias mais movimentados, porém, a espera pode tranquilamente exceder um turno. De acordo com relatos feitos à reportagem, se o estado do paciente não for considerado grave, ele poderá esperar cerca de oito horas até ver um médico.

– O problema é que, após toda essa espera, somos atendidos em cinco minutos e liberados – relata Luciana Lemos, 36 anos, que diz se sentir desrespeitada pelo descaso com a população.

Com o filho de um ano no colo, reclama da falta de prioridade que se dá para crianças e idosos. Também comenta que pacientes de convênio e do SUS aguardam praticamente o mesmo tempo.

Havia mais de 14 horas sem notícias da bisavó internada na noite anterior, a estudante Daiane Luz, 17 anos, foi levada ao desespero pela escassez de informações. Chegou ao posto no exato momento da visita, às 11h30min, mas foi impedida de entrar na sala de emergência porque havia outro paciente, em estado grave, impossibilitando a entrada da jovem. A explicação dada pela enfermeira não acalmou a família.

– Falaram que a gente não podia entrar lá, e sequer nos apresentaram um boletim médico ou um laudo dizendo que ela estava bem. Isso é revoltante e desumano – protesta a neta.

Essa foi a primeira vez que a aposentada Neusa Fagundes pôs os pés na Emergência do hospital de Gravataí, mas a passagem por lá foi suficiente para nunca mais querer voltar. Acompanhando o marido que apresentava quadro de infecção e dores no corpo, ela sentiu que o problema do companheiro fora subestimado e, mesmo antes de ser atendida, ficou com uma péssima impressão do local.

– Disseram que a situação dele não é grave, mas sequer perguntaram se estava com dor. Nosso sofrimento não parece prioridade – desabafa, irritada.

Antigo frequentador do hospital Dom João Becker, o servente Clério Sebastião da Silva, 30 anos, diz que inúmeras vezes foi obrigado a declinar da consulta. O motivo é sempre o mesmo: a morosidade no atendimento. Revoltado com o fato de ter sido encaminhado ao posto de saúde 24 horas e também não encontrar vaga, ele reclama:

– Venho direto aqui e está sempre lotado. Há dias em que não aguento esperar e vou embora, pois tenho que trabalhar. Às vezes, me dirijo ao posto 24 horas, chego lá e eles me mandam de volta. Ficamos neste impasse – diz.

Se os pacientes aguardam até oito horas na fila, é porque a situação não é tão grave. Essa é a explicação dada pela gerente da Enfermagem do Dom João Becker, Cátia Demétrio, para justificar por que o hospital ainda não fechou as portas ao público. Concordando que as condições de atendimento estão precárias e poderiam ser melhores com mais profissionais, ela atribui a superlotação ao fato de que 80% dos que esperam consultas não estão em estado grave, e poderiam ser atendidos na rede básica de saúde.

– Recebemos gente de toda a região e estamos com a emergência superlotada. Pagamos esse preço por não fecharmos as portas – afirma a enfermeira Cátia.

Segundo Cátia, a Emergência possui dois plantonistas. Em relação ao número de pediatras, são apenas dois para atender a toda a demanda do hospital – um para o SUS e um para os convênios.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

PREÇO DO LEITE SOBRE DESDE FRAUDE




ZERO HORA 15 de julho de 2013 | N° 17492

PESO NO BOLSO

Preço do leite sobe 17,5% desde fraude. 
Entressafra causa alta, dizem Agas e Sindilat, mas Iepe/UFRGS mostra estabilidade em 2011 e 2012

MARCELO MONTEIRO

O preço médio do litro de leite longa vida teve alta de 17,53% em supermercados de Porto Alegre desde a Operação Leite Compen$ado, que detectou água, ureia e formol no produto no começo de maio. Nos últimos 30 dias, o aumento ficou em 6,9%.

Levantamento realizado por Zero Hora em quatro redes de supermercados, envolvendo 13 marcas, aponta que o preço mais baixo do litro do leite longa vida na Capital é de R$ 1,89, enquanto o mais alto chega a R$ 2,99. O valor médio, que em 13 de junho era de R$ 2,32, subiu para R$ 2,48 na última sexta-feira, 12, data da apuração de ZH. Em 8 de maio, lotes das marcas Mu-mu, Latvida, Líder e Italac foram retirados de circulação em razão da adulteração.

Segundo as indústrias de beneficiamento e os supermercados, a principal causa da aceleração é a entressafra do produto.

– Há 30 dias, havíamos comentado que, até julho, o preço iria aumentar cerca de 10% em função do período de entressafra – explica o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas), Antônio Cesa Longo.

Em nota, o presidente do Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (Sindilat), Wilson Zanatta, afirma que a redução da oferta do produto determinou aumento generalizado em todo o país, e não apenas no Estado. “O preço do leite subiu em todo o Brasil, determinado também pela entressafra, e não apenas no Rio Grande do Sul, em razão da descoberta de adulteração do produto pelos transportadores denunciados”.

Mas em anos anteriores, não houve alta expressiva. Conforme dados do Centro de Estudos e Pesquisas Econômicas (Iepe) da UFRGS, em dois meses (maio e junho) deste ano, houve alta de 12,68% em relação a abril, enquanto no mesmo período de 2012 houve um recuo de 0,55%. Nesses dois meses de 2011, avançou apenas 0,53%

Segundo Longo, a tendência é de que, a partir de agosto, o preço estabilize, iniciando movimento de queda em setembro, após o fim da entressafra.

– Até o fim de julho, é possível que ainda haja mais uns 3% a 5% de aumento – projeta Longo.

Moradora da zona sul da Capital, a aposentada Lourena Scozziero garante não ter reduzido o consumo de leite após tomar conhecimento da fraude, mesmo diante da “grande variação de preço” que diz ter verificado.

– As marcas que a gente consumia não estavam na lista – conta Lourena.

Praticamente uma vez por semana, ela adquire a quantidade que pretende consumir, pesquisando os preços entre suas marcas prediletas. No supermercado onde costuma comprar, no bairro Menino Deus, o litro do longa vida varia de R$ 1,94 a R$ 2,68.

O aumento nos supermercados reflete uma alta no valor que também ocorreu para o produtor. De abril a junho, o preço do leite padrão – valor pago aos produtores rurais – subiu 11,58%, saltando de R$ 0,77 para R$ 0,8592. Determinado pelo Conseleite, conselho formado por representantes dos produtores rurais e das indústrias gaúchas, o preço do leite padrão é usado como indexador para os negócios envolvendo o produto no Estado.









domingo, 14 de julho de 2013

O SUPLÍCIO DA SAÚDE NO BRASIL


ZERO HORA 14 de julho de 2013 | N° 17491


UM SISTEMA DOENTE


CAIO CIGANA E HUMBERTO TREZZI


Público ou privado, o sistema de saúde do país está doente. O suplício de não encontrar um médico ou leito para internação deixou de ser uma lamúria restrita à população carente, usuária dos SUS. Com o avanço da renda na década, quase 16 milhões de brasileiros passaram a contar com um plano de saúde.

A garantia de atendimento célere, entretanto, virou ilusão. Enquanto o número de clientes das operadoras aumentou 45%, a oferta de médicos pelas empresas não acompanhou a expansão e a estrutura de saúde. Na contramão, minguou. Pelo lado das entidades da categoria, há relatos até de descredenciamentos de médicos devido a queixas na remuneração dos planos – que seguem reajustados para os segurados, enquanto a qualidade do serviço cai.

– Em 10 anos, as mensalidades aumentaram 160% e os honorários, 50%. Há uma grande defasagem – reclama Márcio Bichara, secretário de saúde suplementar da Federação Nacional dos Médicos (Fenam).

Na saúde pública, repete-se o clamor por médicos e estrutura. Mas a raiz do problema não está na falta de profissionais, diagnóstico comum tanto das corporações médicas quanto de governos. Sustentam que apenas estão mal distribuídos, concentrados em grandes centros e ausentes no Interior e nas periferias – assim como a estrutura que permitiria um atendimento mais digno e rápido. Também admitem que há falta de vagas hospitalares e que o número tende a diminuir. Mas discordam em quase tudo no que se refere a soluções.

Os médicos tendem a defender melhores salários e a obrigação dos jovens concursados de irem ao Interior. Já o governo quer importar profissionais.

– Vários países importam médicos, qual o problema? É uma questão de oferta e procura. Mas as entidades de classe médicas são corporativas, querem apenas valorizar os ganhos dos seus representados, esquecendo que a saúde é um bem de todos – alfineta o diretor de Assistência Hospitalar e Ambulatorial da Secretaria Estadual de Saúde, Marcos Lobato, também médico.

Os governos entendem que a saúde básica deve ser reforçada, ao mesmo tempo em que os hospitais deveriam se especializar. Já a maioria das entidades de classe propugna aumento dos valores para internações, como forma de garantir a sustentação dos hospitais. E compra de aparelhos.

– Caneta e estetoscópio não significam atendimento. Qual médico gosta de trabalhar sem aparelhos, sem condições, tendo de fazer o paciente esperar meses? – diz Lobato.




REPÓRTER DA SAÚDE

Paciência para os pacientes do SUS

No Hospital Santa Clara, espera por atendimento pode chegar a 10 horas


CLEIDI PEREIRA

Na emergência do Hospital Santa Clara, que atende pelo SUS no Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, a palavra paciente não passa de um substantivo. Basta olhar para os lados. Mesmo lotada, a sala de espera tem cadeiras vazias e pessoas em pé – cena que demonstra a inquietação de jovens e idosos que chegam a aguardar mais de 10 horas por atendimento.

O único conforto que eles esperam é ouvir técnicos e enfermeiros anunciarem seus nomes ou de seus parentes, um sinal de que o martírio pode estar próximo do fim. O mar de gente se esparrama por bancos no pátio e pela calçada, onde moradores do Interior formam filas para pegar a condução e retornar para casa. Vai e vem que se intensificou nos últimos anos, fazendo do local o ganha-pão de muitos vendedores ambulantes.

Com dor no braço, enjoo e pressão alta havia três dias, a aposentada Henerina Weber de Aguiar, 84 anos, permaneceu 18 horas no hospital, entre triagem, consulta e exames. A idosa só foi liberada às 20h30min, com uma receita de medicação para evitar as náuseas e a recomendação de que procurasse um cardiologista para investigar “um probleminha” no coração. Acostumados com a demora no atendimento, parentes combinaram um rodízio para que a aposentada não ficasse desamparada.

– É brabo. A gente olha para os rostos dessas pessoas e lembra que elas produziram a vida toda e mereciam um tratamento melhor. Se a gente pudesse, pagava uma plano privado – lamenta o neto Maiquel de Aguiar Mariano, 35 anos, analista.

A família, de Cachoeirinha, teve que buscar atendimento para a idosa na Capital, pois o hospital do município alegou não ter estrutura para tratar da suspeita de problemas cardíacos. Quando a reportagem conversou com a paciente, ela aguardava o resultado de um exame, que estaria demorando, segundo os familiares, devido à queda no sistema do hospital.

– Eles me atendem bem, mas não precisava ficar esperando tanto tempo no corredor. Os médicos não dão conta, é (muita) gente – disse Henerina.

Apesar de ter 12 leitos de observação, o Santa Clara contava com cerca de 30 macas ocupadas na sexta-feira. No entanto, conforme a enfermeira líder da emergência, Louise Bandeira Chagas, o dia era de fluxo normal. Até aquele momento, 73 boletins de atendimento tinham sido registrados – a média diária é de cem a 120.

Com mais de 12 horas sem dormir, o técnico em enfermagem Patrick Soares Antunes, 36 anos, criticava a demora da equipe em avaliar a necessidade de cirurgia de sua mulher. Para as dores de Maria Inês, a solução temporária era morfina, mas para a revolta de Patrick o remédio era o desabafo:

– É horrível. Falta tudo, de material à boa vontade dos profissionais.


A ala privada

Pagar um plano de saúde nem sempre é garantia de atendimento melhor. Na sexta-feira, pelo menos em termos de insatisfação, havia equivalência nas emergências pública e privada da Santa Casa. Com dificuldades na fala, Valmor Azevedo da Silva, 58 anos, entregou um bilhete a repórter para expor sua indignação: “Que convênio este. Estamos desde o meio-dia aqui e não chamaram o meu parente. Que vergonha. Aqui, só morrendo”, eram os dizeres escritos a caneta no verso do cupom fiscal de um lanche feito às 16h5min e que custou R$ 7,50.

Morador de Guaíba, Valmor levou seu amigo de infância, que considera como irmão, o aposentado Adair José Rodrigues de Freitas, 59 anos, ao Centro Integrado de Emergências Médicas do Hospital Dom Vicente Scherer.

– Sou cardíaco, tenho problema de pressão e diabete. Estou com falta de ar e já passaram uns 20 na minha frente. É um desrespeito. Não venho mais aqui – afirmou Freitas, acompanhado da mulher, Zeloni.

Sentada ao lado de Freitas, Ana Helena Santos de Leão, 58 anos, em tratamento contra um câncer, aguardava atendimento havia três horas.

– Acho que tem pouco médico para atender a toda essa gente – palpitou sem saber que, ali, o número de profissionais é quatro vezes maior do que o da emergência da Santa Clara e o de pacientes, quase 20% menor.

sábado, 13 de julho de 2013

TEREMOS MAIS OU MENOS MÉDICOS?

REVISTA ISTO É


Leonardo Attuch



O governo acertou no diagnóstico, mas prescreveu um remédio para ser tomado a força, o que pode trazer efeito colateral

Não há dúvida de que o diagnóstico do governo está correto. O Brasil precisa, urgentemente, de “Mais Médicos”, como diz o programa lançado pelo Ministério da Saúde. Com 1,8 profissional para cada mil habitantes, o País se situa bem abaixo da média mundial. Só para citar um exemplo polêmico, Cuba, que poderia exportar profissionais para cá, não fosse o preconceito ideológico, tem uma média de 6,4 e uma colocação no Índice de Desenvolvimento Humano, da ONU, relacionado à saúde, bem superior à brasileira. Além disso, o Brasil precisa de “Mais Médicos” sobretudo em regiões remotas. Enquanto a média de profissionais no Sudeste e no Distrito Federal é superior a 2, ela fica abaixo de 1 no Norte, no Nordeste e no Centro-Oeste.

Um estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, também apontou a medicina como a carreira mais promissora no Brasil. É aquela capaz de gerar os maiores ganhos, com uma renda média de R$ 8,4 mil por mês, e a maior facilidade de se encontrar um emprego – o que, hoje, acontece com 97% dos médicos formados.

É a situação típica de um mercado de trabalho aquecido, em que os jovens que se formam podem escolher onde trabalhar. Muitas vezes, entre a selva amazônica ou as periferias das grandes metrópoles e os hospitais privados localizados nos bairros nobres dos centros urbanos, escolhem a segunda opção, ainda que tenham tido a formação subsidiada pelo Estado, nas universidades públicas.

Essa situação cria distorções óbvias. Em Rondônia e em Mato Grosso, os médicos de comunidades locais chegam a ganhar R$ 30 mil por mês. E mesmo no próspero Rio Grande do Sul, prefeitos de cidades menores têm dificuldade para atrair e reter profissionais. Por isso mesmo, gestores municipais do País inteiro têm se mostrado favoráveis à importação de médicos.

A resposta encontrada pelo governo foi a abertura do mercado brasileiro aos profissionais de fora – o que é correto – e o trabalho compulsório no Sistema Único de Saúde de jovens estudantes, durante os dois últimos anos do curso de medicina, com bolsas mensais de R$ 10 mil, o que cria dúvidas sobre a legalidade do chamado “serviço civil obrigatório”, como apontam as entidades médicas.

Ao lançar o programa, o governo mirou as populações mal assistidas, como é seu papel, mas não se colocou no lugar de quem, hoje, pensa em ingressar na carreira médica. O remédio tomado à força, para muitos, pode funcionar como um incentivo ao inverso, trazendo como resultado menos médicos – e não mais. Tomara que seja apenas o bode na sala para que seja possível aplacar a resistência das entidades de classe à necessária importação de profissionais.

UMA CRUZADA PELA MEDICINA BÁSICA

REVISTA ISTO É N° Edição: 2278 | 13.Jul.13 - 09:54

Divergências internas podem modificar o projeto do governo, mas a presidenta Dilma não abre mão de levar médicos para as regiões carentes

Izabelle Torres

A saúde pública tem se tornado protagonista da cena política brasileira como poucas vezes se viu na história recente do País. A decisão do governo de trazer médicos estrangeiros para trabalhar em áreas desassistidas e o anúncio de que a partir de 2015 um estágio de dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) passará a ser pré-requisito para a graduação em medicina movimentaram os poderes da República e as classes profissionais. As mudanças fazem parte do programa Mais Médicos, a medida mais drástica do governo em resposta aos protestos sociais que se espalharam pelo País no último mês. Ao priorizar o atendimento básico e generalista, o governo acredita na redução gradual de despesas públicas, com o atendimento a doenças evitáveis se tratadas adequadamente. No ano passado, por exemplo, foram gastos mais de R$ 3,6 bilhões em tratamentos de males causados pela obesidade, como doenças cardiovasculares. O valor gasto equivale a metade das despesas anuais previstas para o novo programa.


SOCORRO
Médicos trabalham em favela de Duque de Caxias,
no Rio: projeto pode ampliar atendimento

Apesar da intenção admirável de resolver os gargalos na assistência básica de saúde, a polêmica causada desde o lançamento do programa demonstrou que houve pelo menos duas linhas cruzadas dentro da equipe governista. A primeira delas se refere ao fato de que a ideia inicial era tratar apenas da vinda de médicos estrangeiros para atender de forma emergencial regiões mais carentes de profissionais da área. O assunto sofria críticas, mas seu teor era de importância incontestável, visto os números oficiais sobre o déficit de 54 mil médicos acumulado na última década. O que se viu, entretanto, foi a entrada inesperada de outra proposta que pouco tem a ver com a primeira. A decisão de ampliar o curso de medicina em dois anos não chegou a ser discutida efetivamente no Planalto, surpreendendo até auxiliares mais próximos da presidenta Dilma. O que causou maior estranheza foi o fato de a medida ter aumentado as resistências ao projeto original, desgastando ainda mais as relações do governo com os médicos brasileiros. Tudo isso por uma proposta que só começará a produzir qualquer efeito prático em 2021, quando nem a própria presidenta, mesmo se reeleita, estará no poder.

A outra linha cruzada pode ser notada na lista de prioridades dos países escolhidos para exportar os profissionais. De forma isolada, o ministro das Relações Exteriores assinou um protocolo de cooperação com Cuba. A iniciativa dava a entender que a prioridade seria pelos médicos desse país. Entretanto, uma pesquisa feita pelo Planalto mostrou que a preferência dos brasileiros é por gente formada nos Estados Unidos, seguidos por Espanha e Portugal. Cuba aparecia em quarto lugar. Como o atual governo adora se mexer com base em pesquisas, decidiu começar a investida da importação pela Espanha e depois por Portugal. Nos próximos dias, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, terá uma reunião com o governo espanhol sobre os procedimentos adotados. Para os cubanos sobrarão as vagas remanescentes.


SOLUÇÃO?
O ministro Padilha:
"Podemos resolver parte dos problemas da saúde"

Apesar do estardalhaço que causaram, as mudanças propostas pelo Mais Médicos não representam inovações ao que vinha sendo discutido nos gabinetes de Brasília durante os últimos governos. A ideia de uma passagem obrigatória pelo SUS, por exemplo, vem se arrastando desde a gestão de Fernando Henrique Cardoso, quando o então ministro da saúde Adib Jatene defendeu a humanização do ensino de medicina. “O importante é ter médicos capazes de atuar sem equipamentos modernos e robóticos. É formar médico especializado em gente”, disse ele. Mesmo tratadas como irreversíveis, as mudanças no ensino ainda podem sofrer ajustes durante os debates, até pela pressa com que foram colocadas na pauta. “Estamos brigando em várias frentes e essa ideia será amadurecida nos próximos meses”, afirma o ministro da Educação, Aloizio Mercadante.

O modelo proposto pelo governo brasileiro é inspirado no programa inglês, apesar das diferenças substanciais que separam a realidade médica dos dois países. Com uma das medicinas mais bem avaliadas do mundo, a Inglaterra possui um sistema de saúde semelhante ao SUS, composto por 37% de profissionais estrangeiros. Além do atendimento gratuito aos cidadãos, os ingleses dispõem de hospitais bem equipados e uma média de 2,8 médicos por mil habitantes. Em comparação com o Brasil, a maior semelhança é o tamanho do sistema de saúde e a intenção de proporcionar serviços gratuitos para todos. Aqui, a média é de 1,8 médico por mil brasileiros e ainda há pelo menos dois mil municípios com menos de um profissional para mais de três mil habitantes. É com base nessas estatísticas que o governo decidiu enfrentar as resistências e importar profissionais sem a revalidação do diploma, cuja prova oficial tem 90% de reprovação dos estrangeiros que tentam trabalhar aqui. “Acreditamos que uma nova distribuição de profissionais pode resolver grande parte dos problemas da saúde”, diz o ministro Padilha.



A cruzada de Dilma Rousseff para transformar o programa Mais Médicos em realidade bem-sucedida ainda terá de percorrer um longo caminho. Por se tratar de uma medida provisória, a proposta ainda terá de ser aprovada pelo Congresso nos próximos 90 dias para se tornar lei. Será uma prova de fogo para o governo, no momento de relações conturbadas da presidenta Dilma com sua base aliada. Na quarta-feira 10, os parlamentares deram uma demonstração do clima vivido com o Planalto. O governo foi derrotado na votação da proposta que destina 75% dos royalties do petróleo para a educação e 25% para a saúde. Depois de cinco horas de discussão, deputados governistas dispostos a mostrar-se fiéis a Dilma Rousseff tiveram de deixar a votação para evitar que a sessão alcançasse o quorum porque as mudanças do texto defendido pelo governo eram dadas como certas.

Nesse cenário de dificuldades de articulação, os parlamentares já estudam emendas à MP dos médicos para atender aos apelos dos conselhos de classe. No plenário, em que a fidelidade ao governo é colocada à prova a todo momento, alguns parlamentares dizem que podem propor a dedução dos dois anos de serviços obrigatórios no SUS do curso de residência médica e propor a adoção de uma prova alternativa ao Revalida, elaborada especificamente para os profissionais estrangeiros que vão se inscrever no programa. Alheio às resistências e às ameaças de mudanças no texto original, o governo se prepara para as próximas fases da ofensiva por melhorias na saúde básica. A pressa se deve à necessidade de o Mais Médicos mostrar eficiência rapidamente. Para a presidenta, tirar o atendimento básico de saúde do caos em que se encontra representa não apenas sua resposta às ruas, mas também o combustível de sustentação da própria trajetória política.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

MÉDICOS CUBANOS E ESTADISTAS

CORREIO DO POVO, BLOG DO JUREMIR MACHADO DA SILVA 12 de julho de 2013


Por Alcides Stumpf


Médico

A Imprensa nacional divulgou esta semana: Governo recua em contratações de médicos cubanos.

Deu-se que de repente, não mais que de repente, aflorou a verdade. E junto com a verdade resplandeceu o absurdo, a farsa, o escárnio, e o pior: a escravidão.

O pretenso contrato entre os governos do Brasil e Cuba, alinhavado pelo brilhante ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota, continha algumas cláusulas obscuras em suas entrelinhas contemplando a vinda para o Brasil de milhares de cubanos e que por lá faturaram seus diplomas médicos.

Entre as diversas aberrações do famigerado documento, destaco algumas que, sem exagero, beiram as fantasias mais sinistras e inimagináveis.

Conheça então, e analise leitor, algumas das condições inicialmente acertadas pelo senhor Patriota e seus similares caribenhos.

Primeira: o Brasil adotaria o modelito semelhante ao negociado com a vizinha Venezuela, onde o pagamento pelos serviços profissionais é feito diretamente ao governo cubano, que, por sua vez, repassa apenas parte dos valores aos médicos. Nesse rolo todo, Cuba funciona como uma terceirizada, espécie de atravessadora oficial, evidentemente contemplada com o filé mignon. Se levado em conta que o salário dos médicos na Ilha é de US$ 40, não é muito difícil adivinhar quem, no final das contas, fica com a parte do leão.

Segunda: consta que, para evitar eventuais “deserções”, os profissionais são obrigados a abrir uma poupança compulsória, somente resgatável quando (ou se) retornarem à terra natal.

Assim sendo, e aqui adotados na íntegra os termos contratados à Venezuela, os seis mil médicos cubanos imigrantes ainda teriam que submeter-se a um rígido regulamento disciplinar pouco usual em nosso convívio social. Seriam eles sumariamente proibidos de viajar, dirigir, beber álcool e falar com a imprensa; precisariam ainda de autorização expressa para dormir fora do alojamento. Ou seja, não poderiam sequer dar uma namoradinha, sem aprovação prévia e consentimento explícito do comissariado local.

Obviamente, muitos dos ditos médicos cubanos submetidos à experiência venezuelana rebelaram-se e “desertaram”. Recorreram os ingratos, à Justiça norte-americana, acusando Havana de submetê-los a regime de “escravidão moderna”.

Postos esses e alguns outros pontos menos obscuros mais às claras, o governo brasileiro resolveu, temporariamente, “paralisar” as negociações com os hermanos. Digamos: aplicou uma paradinha estratégica.

Tal brecada verde-amarela foi tomada como desagradável revés pela esquadra de Havana, que tem no envio de médicos para o exterior, atualmente, sua maior fonte de divisas. Como negociante insaciável, a bela e exuberante Cuba deseja ardorosamente ampliar sua participação nesse mercado gozoso.

O principal freguês desta nada ética investida é a Venezuela, que mui pródiga, encarrega-se de colaborar com quantias vultosas ao caixa estatal, alcançando algo em torno de seis milhões de dólares anuais a Cuba. Esta rubrica, saibam todos os senhores, supera muito as divisas provenientes do turismo, da exportação de níquel, e demais receitas externas da ensolarada Ilha Comunista.

Mas, por aqui, neste país não menos alegre e tropical, houve a suprema ironia. Ora vejam senhores! Graças às velhas e caquéticas leis trabalhistas, lá dos idos de Vargas, o Brasil escapou-se de pactuar com a sórdida prática da escravidão. Isso em plena flor do século XXI.

Conclui-se que esta pirueta desastrada de tentar jogar o foco da revolta popular sobre os médicos, trata-se de mais um dos truques baratos de Dona Dilma – que evidentemente não deu certo. Cada vez fica mais flagrante a ânsia por desviar a atenção pública da corrupção que campeia linda leve e solta em seu (des)governo. Tais como as desastradas barbeiragens da “Constituinte a Jato”, visando a reforma política – que não durou 24h-, e o inverossímil plebiscito, urdidas às pressas nos porões palacianos para o mesmo fim, vai agora para o ralo a grande sacada dos curandeiros cubanos.

A nós, médicos crédulos e não marxistas, cabe dar graças a Deus: a população será preservada de mais essa agressão inominável por ora. No entanto, os milhares de rebentos provenientes dos chamados movimentos sociais, que foram a Ilha de Castros para supostamente estudar medicina terão de suar a camisa para obterem aprovação na revalida – exame que libera o exercício da medicina no Brasil a profissionais formados em outras paragens.

Ao final, informo que no Brasil, médico virou artigo “Piratas do Caribe”, vendido por camelôs da saúde: “la garantia soy yo”. E estadista é quem larga grana para construir estádios.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

DEMAGOGIA NO SETOR DE SAÚDE

O ESTADO DE S.PAULO, 10 de julho de 2013 | 2h 09

OPINIÃO


São demagógicas as medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff para melhorar a saúde no País, por meio do pretendido aumento da oferta de médicos, tanto brasileiros como estrangeiros.

Na verdade, elas beiram a irresponsabilidade, na medida em que não apenas deixam de lado os problemas mais graves do setor - ou seja, nada resolvem, apesar do estardalhaço -, como ainda poderão produzir efeitos ao mesmo tempo desastrosos e duradouros, por causa das mudanças que introduzem nos cursos de medicina e nas relações de trabalho dos futuros médicos, em seu início de carreira.

A duração já longa do curso de medicina passará de 6 para 8 anos, a partir de 2015. Considerando o tempo necessário para especialização, a formação de um médico vai durar pelo menos 10 anos. Concluídos os 6 anos do curso, os estudantes passarão a um segundo ciclo, durante o qual terão de trabalhar por 2 anos, com registro provisório, no Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse período, receberão uma bolsa do Ministério da Saúde, cujo valor ainda não foi definido, mas que deve ficar entre o que é pago para residências médicas (R$ 2,9 mil mensais) e o que recebem profissionais inscritos no Programa de Valorização dos Profissionais na Atenção Básica (R$ 8 mil). No primeiro ano trabalharão na rede de atenção básica e no segundo, nos serviços de urgência e emergência.

O governo quer aumentar o número de médicos na rede pública e melhorar a formação dos novos profissionais. No primeiro caso, deverão também ser abertas 11.447 novas vagas para graduação e mais 12.376 postos de especialização, em áreas prioritárias, até 2017. Sem falar na contratação de médicos estrangeiros para atuar, com registro provisório, em pontos críticos no interior do País.

Quanto ao segundo caso, esta não parece a forma mais adequada de aprimorar o ensino. Tudo indica que essa parte só entrou no programa para torná-lo mais palatável. Não por acaso seu nome é Mais (e não Melhores) Médicos.

Esse programa levanta questões da maior seriedade, às quais todos os que têm uma parcela de responsabilidade nos problemas da saúde devem estar atentos. Em primeiro lugar, o trabalho compulsório dos estudantes que concluem o sexto ano de medicina - em faculdades públicas e particulares - no SUS é um ato de força inaceitável.

É uma forma de retorno ao regime de servidão, disfarçada com belas palavras e boas intenções. Quem diria que chegaríamos a tanto a esta altura da História e sob um governo que se diz progressista. A alegação de que existe algo semelhante na Grã-Bretanha não convence. A começar pelo fato de a situação ser lá completamente diferente. Nada comparável ao que existe aqui. Esse país tem um dos melhores sistemas de saúde pública do mundo e não chegou lá por usar mão de obra servil.

Em segundo lugar, o que o governo está tentando fazer com o Mais Médicos é transferir a solução dos problemas da saúde no Brasil - que lhe cabe - para os jovens médicos. Em terceiro lugar, erra até mesmo na identificação desses problemas.

Um deles, talvez o mais grave - e que vem de longe -, é o da tabela de procedimentos do SUS, que cobre apenas 60% dos custos. Como os outros 40% não caem do céu, isto criou uma situação insustentável, que ameaça levar ao colapso o sistema de saúde pública a curto prazo. Outro é a incapacidade das redes de hospitais e de laboratórios - tanto públicas como privadas - de atender à demanda. Estudo feito pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) indica que, apenas no SUS, houve uma redução de 41 mil leitos hospitalares entre 2005 e 2012.

Esses, sim, são os grandes problemas da saúde. Se eles não forem atacados e resolvidos logo - e até agora o governo não anunciou medida séria nesse sentido -, para quais hospitais o programa Mais Médicos enviará os pacientes? Acrescente-se, finalmente, que tal programa levanta questões legais que poderão levar a longa batalha judicial.

Quem resumiu bem esse caso foi o presidente do CFM, Roberto d'Ávila: "As medidas são paliativas, midiáticas e eleitoreiras".